
1) Como você conheceu o trabalho de terapia assistida por animais?
Foi na época da faculdade, durante os estágios de atendimento clínico a pacientes. Na época eu atendia um menino de 8 anos, vítima de violência doméstica, que tinha muitas dificuldades de se vincular aos 3 profissionais da equipe multiprofissional que o assistia. Motivada pelos trabalhos de Nise da Silveira, de onde tirei inspiração, levei para a clínica escola Ernesto, meu gato de estimação. A idéia era amadora, não estava embasada em conhecimento especializado sobre TAA. A questão é que nenhum recurso tradicional obtinha resultados com o menino, que não falava e era agressivo. Sabia que a criança gostava de gatos, o comportamento de Ernesto era bastante previsível e minha supervisora de estágio achou a idéia viável. Levei o gato para a sessão. Ficou muito claro que a presença do animal na sala de ludoterapia foi um divisor de águas: antes/pós Ernesto. O menino conversou, falou de sua história pela primeira vez por meio da “história do Ernesto”, que, segundo ele, “apanhava em casa e sentia muita raiva”. O menino passou a interagir comigo depois, mesmo sem o Ernesto na sala. Os resultados me levaram a querer saber mais a fundo a respeito desta prática, foi quando conheci o trabalho da antiga OBIHACC (Organização Brasileira de Integração Homem-Animal Cão Coração). Foi quando conheci o seu trabalho.
2) Qual é o tema do seu TCC?
O tema da minha dissertação de mestrado é Terapia assistida por animais como recurso terapêutico no atendimento a crianças enlutadas. Procurei compreender como se dá o atendimento psicológico na fase diagnóstica a uma criança que busca atendimento em função do luto pela perda de um dos genitores (pai ou mãe). Busquei compreender os efeitos da presença de um cão terapeuta no atendimento à criança. Muitos eram os questionamentos iniciais: se a criança busca atendimento por que perdeu alguém, como ficará quando tiver que se despedir do cão? E se a atenção da criança ficar voltada só para o animal, como administrar esta questão? Será que as questões do luto aparecerão em meio à brincadeira? Os resultados da discussão dos dados obtidos foram muito interessantes. Surpreenderam inclusive a mim, embora acreditasse previamente no quanto a TAA poderia contribuir. O que não sabia, e esse era o objetivo da pesquisa, era se neste contexto de luto seria viável a introdução de um animal, e que, ainda, pudesse ter resultados positivos.
3) Como vc desenvolve a TAA nos seus atendimentos
Utilizo a TAA em dois contextos, que envolvem a minha prática profissional: hospitalar e clínico. Assim, cada um destes contextos segue um protocolo e tem objetivos diferentes, especialmente pelo perfil dos atendimentos e dos pacientes.
No hospital, trabalho com pacientes internados que buscam o atendimento embasado na filosofia dos Cuidados Paliativos. São pacientes portadores de doenças potencialmente fatais que estão fora de possibilidade de cura e que estão internados para melhor controle de sintomas e melhoria da qualidade de vida, dentro das possibilidades terapêuticas disponíveis. É neste sentido que a presença do animal atua: como uma ferramenta, um recurso para promover o alívio do paciente. Assim, a TAA é utilizada como um recurso em Cuidados Paliativos.
No contexto clínico trabalho com pacientes enlutados. Este é o foco dos meus atendimentos como psicóloga. Os objetivos são os de uma terapia de luto e a Balú, minha co-terapeuta. Ela facilita meu trabalho, me ajudando nas interações com o paciente. Somos uma dupla de terapeutas, cada uma com os seus objetivos. O meu, trabalhar, dela, se divertir, dar e receber amor.
4) Quem é a Balú para você
A Balú, antes de qualquer coisa, é minha cadela. É minha “filha”. Mora com minha família e faz parte dela. Temos uma relação afetiva muito forte, muito especial. Acredito que acontece conosco como acontece com pessoas da mesma família que trabalham juntas: há uma relação de trabalho, que exige cuidados, mudança de postura no momento em que atuam juntas, mas que, quando termina o horário de trabalho, voltam a se olhar a tratar como família.
Ela é uma cadela muito, muito especial. Como cão terapeuta, ela é ótima. Fico encantada como ela tem o “timming” correto, como se soubesse o que fazer na hora que tem que fazer.
Preciso confessar que muito disto devemos à “Tia Katia”, que a treinou desde 3 meses de idade. Por ela a Balú deixa a gente falando sozinha, fazer o quê. O bom é que a gente também adora a Tia Katia. rs
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